BrighterNight
just a small town girl, living in a lonely world.
oh star, fall down on me
♥ segunda-feira, 1 de março de 2010 13:59

O manto que acobertava o céu frio e amedrontado caíra, revelando as estrelas serelepes resplandecentes ao brilhar a anos luz da Terra. A garota emaranhou o indicador em alguns fios soltos de seu cabelo, preso em uma trança mal-feita. Passou a enrolar a ponta do dedo entre os fios, moldando leves cachos castanhos que pendiam desengonçadamente à frente de sua orelha esquerda. Seus pés balançavam ao ritmo de uma melodia qualquer que sua mente sussurrava; sentada no porto, olhando as ondas baterem nas grandes e roliças toras de madeira envelhicida. Ela adorava aquele cheiro. O odor da matéria-prima entardecida ao colidir com as ondas ferozes que arrebatavam o porto antes de alguns navios-de-carga darem a partida. A brisa suave bateu-lhe a face, levando consigo o restante dos fios soltos e fazendo-os roçar em sua pele dourada, onde o sol há muito reluzia seus feixes de luz, aquecendo seu corpo fraco e abatido. Suspirou até sentir seus pulmões palpitarem avisando-a do ato voluntáriamente desnecessário. Mas ela não queria parar, queria inalar a maior quantidade do cheiro arrebatador da madeira molhada, até conseguir senti-lo a metros de distância do pequeno porto onde, sempre, costumava sentar-se e rever as estrelas. Olhou para o céu, a lua cheia era o único ponto de luz mais próximo; os navios já haviam partido com seus imensos compartimentos e seus marinheiros refugiados. Além da lua, haviam as estrelas. Estas não conseguiam emanar um brilho suficientemente forte para clarear a escuridão, contudo, a garota fora capaz de vê-las refletirem sob o mar enfurecido. Adorava aquilo. A sensação remota de que seu subconsciente esqueçera-se das recordações tenebrosas que insistiam em acabar com suas noites de sono. Escutou o praguejar sensível em sua audição, ela não estava sozinha. Não mais.

- Elas são lindas, não são? - em um fio fraco sua voz ecoou contra o barulho da vida marinha.
- São. Mas não se comparam a ti - a voz às suas costas forçou-se a dizer. Um vômito de palavras. Um sorriso estendido em cada canto dos lábios da garota sonhadora.
- Não faça comparações sem ao menos compreender o brilho glamuroso por de trás das estrelas, Evan. O que pensa que vê, é apenas uma ilusão, não sou real - meneou o pescoço, girando-o em torno de 60º para encará-lo com os olhos faíscantes. Evan recuou um passo, seu coração falhou uma batida.
- Eu sinto a sua presença, Dannia. Eu sinto o seu perfume correr e enfraquecer-me como se eu fosse um garoto febril por amor. Eu sinto. É real - a brisa transformara-se em um vento gélido e cortante, ambos estremeceram.
- Como podes sentir o que não é real, Evan? Sua mente fértil fora capaz de criar um odor específico para a sua mais bela imaginação. Mas, o que ela poderá criar depois? Lágrimas, toques e quem sabe, até sensações! Isso não pode continuar assim, essa dor que envolve meu peito nunca irá cessar. E é tudo culpa sua, Evan. Sua e de mais ninguém - Dannia ingressou em uma expressão serena, contendo o mesmo sorriso enlouquecedor entre as curvas de seus lábios. Ainda o encarava, o olhar fixado em um ponto específico: os quartzos azuis que desenhavam profundamente os olhos de Evan.
O garoto prendeu-se ao seu pudor e a sua confiança enquanto suas palavras eram formuladas e saíam aceleradamente, assim como algumas lágrimas ranzinzas e doentias caíam deliberadamente por sua face infantil.

- Como podes ignorar o fato de que estamos aqui, sob a lua e as estrelas e ainda dizer-me que não és real? Serás que tu, Dannia, meu amor, não percebes que está enganada? Diante de todas as circunstâncias e de todos os fatos, eu afirmo com todo o poder impetuoso que foi-me dado para amar-te, que és real. E com toda a certeza e a incerteza, eu tenho forças suficientes para afirmar-lhe que o amor que se expande aqui dentro é real, assim como a vrubração escaldante que corre por suas veias, e o coração que bombeia a razão da minha existência. És real. A mais pura realidade que meus olhos conseguem enxergar.


O céu novamente fora coberto pelo manto abominável, mas uma estrela continuava ali. Viva... e real.